Por Edmilson Siqueira
Além de compositor essencial da bossa nova, Roberto Menescal (Menesca para alguns amigos) é também um grande produtor musical. Trabalhou em várias gravadoras, sempre melhorando produtos que tinham potencial, mas não conseguiam chegar a um grande público. Foi assim, por exemplo, com Emílio Santiago. O cantor vendia cerca de 70 mil LPs a cada lançamento. Depois que Menescal passou a produzi-lo, convenceu-o a iniciar a série Aquarela Brasileira. Passou a vender 800 mil e a fazer shows por todo o Brasil.
Com Elis fez algo parecido. A cantora já era famosa e quando o escalaram para ser seu produtor musical, Elis foi logo impondo sua banca: "Quero duas músicas do Chico, duas do Jobim, duas do Baden...". Menescal tentou ponderar: "Não é bem assim, né? Esses compositores têm filas de intérpretes pedindo música". Elis não recuou: "Se não for assim, não gravo!"
Eu disse que recebia muitas fitas na gravadora e que podia ter algum coisa boa por lá. Disse pra ela me dar um mês que eu ia ouvir. Ouvi tudo e garimpei uma que eu gostei. Era "Bala com Bala", de uma dupla nova, João Bosco e Aldir Blanc.
Mas, em entrevista recente, Menescal explicou: "Elis era uma grande intérprete, talvez a maior do Brasil, mas era difícil de vender discos. Vendia uns 15 mil, o que era pouco pro investimento. Então tentei melhorar, não a cantora, mas o repertório. Aos poucos ela foi aceitando e o disco vendeu mais de 150 mil cópias".
Mas há uma outra história desse disco. Ele foi pedir músicas para o Francis Hime, parceiro do Chico. E Hime tinha mesmo três músicas dele com o Chico que ofereceu a Menescal. Mas avisou: "Elas não são lá uma Brastemp, viu?".
Menescal levou a fita para Elis (fita cassete, diga-se) e ouviram as três músicas. Elis resmungou: "Pros outros eles dão cada puta música. Pra mim essas merdas!" Menescal, como sempre calmo, tentou ponderar, mas as músicas não eram boas mesmo. Enquanto discutiam, a fita continuou rodando em silêncio, mas, de repente, uma outra música começou: "Quando olhaste bem nos olhos meus e o teu olhar era de adeus..."
Os dois se calaram e Elis quase gritou: "O que que é isso?". Ouviram a música inteira. Bem, quase inteira. Ela ia, com letra, até a frase "...e reclamei baixinho...". Dali pra frente só tinha um lái-a-lá do Francis acompanhando a segunda parte da melodia.
Menescal então ligou pro Francis e explicou a situação. Francis se assustou: "Isso tava na fita? Então eu aproveitei uma fita antiga. Essa música faz três anos que a gente tá fazendo e não consegue". Menescal confirmou se a melodia era aquela mesmo e falou: "Deixa comigo".
"Aí, César Camargo Mariano fez um arranjo maravilhoso, Elis gravou o que tinha da letra e na parte sem letra cantarolou um lái-a-lá sentido."
Menescal pegou a gravação (numa fita cassete) e ligou pro Chico. "Posso ir aí? Tenho que lhe mostrar uma música. Você tem gravador de fita cassete?" Chico disse que tinha, mas não sabia onde estava.
Lá chegando, descobriram o gravador na cozinha, sobre a geladeira. Menescal botou a fita e Chico achou bonita a introdução, sem saber que música era. Quando Elis começou a cantar, Chico reconheceu e disse: "Mas eu não terminei essa letra, trem três anos que estou tentando..."
Quando a música chegou na segunda parte, aquela do lái-a-lá, Chico pegou um papel de pão que estava sobre a mesa e começou a escrever o resto. Em segundos, o fim da música apareceu: "Dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar teu nome te humilhar e me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso, só pra mostrar que ainda sou tua, até provar que ainda sou tua...".
Menescal continua: "Fui pra casa, liguei pra Elis e disse que Chico tinha acabado a letra e que levaria pra ela no dia seguinte. Ela não aceitou, pediu pra eu levar naquela hora. E lá fui eu até a casa dela, acho que lá pelas três da manhã."
(A segunda foto é de uma gravação ao vivo de "Atrás da Porta" com Elis. Visceral.)


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