Por Ronaldo Faria
Clara caminhava na claridade
que o sol ainda dava à espera do mundo deixar. Eram poucos e raros raios,
decerto, mas vinham certos no rosto da mulher de sorriso largo e branco. Com
vida a fluir em beijos ilusórios e poemas. Sofismas e rimas a misturar bocas e
lábios nos fardos que cada amor dá em dádiva. E ria da vida, da flor a desabrochar
safada em meio a espinhos, dos desatinos a voarem na imaginação. Era mulher e
menina. Pequena, anárquica, a viver célere, talvez a saber que a vida é um
sopro sem solução.
Clara, de risadas que
frutificavam malícia e amores perdidos e atávicos, seguia a rua que descia para
a casa física na beira da avenida. Ao seu derredor, uma mistura de bossa quase
nova e sons de bicho-grilo que tudo rima pra não grilar com um dia ver tudo se perder.
Ainda na falta de duas décadas para Nostradamus provar que estava errado e era
um picareta inflacionado, ia a correr no universo de versos inverossímeis e paralelos.
Seus elos com o velho há muito haviam se rompido. O mundo sorvia a sua libido. Era somente Clarinha.
Clara transitava entre pasma e
profética, poética nas vozes da multidão que se esparramava eclética e cética
das verdades da vida. Brilhava feito estrela nas noites translúcidas que a
loucura dá e acordava ao novo lumiar de toda a música. Pernoitava doidivanas e plena
como planasse soberba sobre a mesa que entrega sacies e solidões aos que a
trilhavam em loucas andanças loquazes. E assim, assimétrica na métrica da
beleza sísmica, foi-se feito vento que chega, faz e mostra que é somente refrão
da vida. E virou estrela, dessas que de noite é a mais clarinha.
(Com Itamar Assumpção a saudar a clarividência de Clara)

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