quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A Capital capital

 Por Ronaldo Faria


A tarde e noite de São Paulo, que traduzem desejos de Pedros, Josés, Paulos, Marias, Cecílias, Franciscas, pardo(a)s, branco(a)s, asiático(a)s e afro(a)s brasileiro(a)s num braseiro de chamas e cinzas, induz e traduz paraíso e cruz. Transborda bordas das marginais, engarrafa bebedeiras loucas e garrafas de bares e botecos entre troças, terços, trecos e tecos. Larga em talagadas e baforadas, trepadas falhas e calcinadas memórias à lucidez e insensatez de uma vida só. Na dó da dor, craqueiros e cracudos, surdos e cegos à sociedade, caminham zumbis sem pedir bis até seu barato passar. No cemitério de ninguém a batata de cada um e todos está a assar.
O amanhecer de São Paulo, apoteótico e ciclópico como fosse o repetir de ligar e desligar um interruptor que aciona o exaustor da realidade e refaz a vida à morte certa, acorda para a corda dos relógios das fábricas e escritórios, muitos modernos e outros simplórios. Todos a se juntarem aos comércios na inépcia feito forno de padaria que vomita pães e nostalgia. E juntam filas nos terminais, trens, metrô. Uns ainda dormem em pé, outros ressonam sentados. Mas, do lado de fora desse aforismo, a metrópole, acrópole de si mesma, renasce para cumprir seu destino. No desatino próprio da morte, a sorte sorri para quem puder ainda pagar. 
A madrugada de São Paulo, essa que nunca termina ou começa, é eterna e etérea peça que sequer desce as cortinas. A vê-la apenas meras retinas cheias de fumaça e tragos. E luzes, cruzes, artroses velozes, carros que se esgueiram dos semáforos e faróis, fenóis e fomes insaciáveis. “Bateu a larica? Vá na próxima esquina que terá uma saída!” Nas ruas iluminadas e entregues em jardins mil, escuras e camaleônicas nos seus neons e sons, os heróis bêbados e tristes caminham a esmo para chegarem ao derradeiro lugar. Do alto, nuvens cinzas se clareiam para entregar à lucidez do depois os filhos da loucura solta em brandura formal. Na esquina, São Paulo se despe em formol.

(Com Arrigo Barnabé)

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