Por Ronaldo Faria
A tarde e noite de São Paulo,
que traduzem desejos de Pedros, Josés, Paulos, Marias, Cecílias, Franciscas, pardo(a)s,
branco(a)s, asiático(a)s e afro(a)s brasileiro(a)s num braseiro de chamas e cinzas, induz e
traduz paraíso e cruz. Transborda bordas das marginais, engarrafa bebedeiras
loucas e garrafas de bares e botecos entre troças, terços, trecos e tecos. Larga
em talagadas e baforadas, trepadas falhas e calcinadas memórias à lucidez e insensatez
de uma vida só. Na dó da dor, craqueiros e cracudos, surdos e cegos à
sociedade, caminham zumbis sem pedir bis até seu barato passar. No cemitério de
ninguém a batata de cada um e todos está a assar.
O amanhecer de São Paulo,
apoteótico e ciclópico como fosse o repetir de ligar e desligar um interruptor
que aciona o exaustor da realidade e refaz a vida à morte certa, acorda para a
corda dos relógios das fábricas e escritórios, muitos modernos e outros simplórios.
Todos a se juntarem aos comércios na inépcia feito forno de padaria que vomita
pães e nostalgia. E juntam filas nos terminais, trens, metrô. Uns ainda dormem
em pé, outros ressonam sentados. Mas, do lado de fora desse aforismo, a metrópole,
acrópole de si mesma, renasce para cumprir seu destino. No desatino próprio da
morte, a sorte sorri para quem puder ainda pagar.
A madrugada de São Paulo, essa
que nunca termina ou começa, é eterna e etérea peça que sequer desce as
cortinas. A vê-la apenas meras retinas cheias de fumaça e tragos. E luzes,
cruzes, artroses velozes, carros que se esgueiram dos semáforos e faróis,
fenóis e fomes insaciáveis. “Bateu a larica? Vá na próxima esquina que terá uma
saída!” Nas ruas iluminadas e entregues em jardins mil, escuras e camaleônicas
nos seus neons e sons, os heróis bêbados e tristes caminham a esmo para
chegarem ao derradeiro lugar. Do alto, nuvens cinzas se clareiam para entregar
à lucidez do depois os filhos da loucura solta em brandura formal. Na esquina, São Paulo se despe em formol.
(Com Arrigo Barnabé)

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