Por Ronaldo Faria
-- Pra virar parceria acho que
faltou maestria. Ou um cara mais ligado do logon.
-- Mas uma só canção já não
está bom?
-- Se você pensar num só tom,
tá.
-- Então já foi. Está tudo nos
conformes: escreveu, publicou, fez música, plantou árvores, teve filhos, amores,
dores, alegrias e vida. Até a dor da morte. Deu!
-- Tem razão. Só nasci no
tempo errado. Onde foda se faz sem antes se ouvir um fado. Fosse antes... até
flores surgiriam nas mãos da amada.
-- Não existe antes. É só o
agora e aquilo que foi. O resto é delirar. Para e pensa: cada um no seu quadrado.
Você até que avançou bem além.
-- Amém! Oxalá!
II
-- Next year, baby!
-- Uai?
-- Nada. Só queria delirar que
falo a língua do opressor.
-- Deveria ter pensado isso
décadas atrás.
No derredor, sob um sol escaldante
e flamejante, o casal se acasala agora no chão da churrascaria a servir a
melhor peça bovina da Argentina.
III
O Carnaval está chegando e o
oceano que bate em Recife surge e ressurge, ruge e urge nas costas que trazem
até tubarões. Em Olinda, essa coisa repetitivamente linda, casarios e rios de lágrimas
descem e sobem ladeiras nas maneiras que se há, a beber delírios. Na vaga devassa
que desabrocha da rosa esturricada, a calada prosa que se arranca da voz calada
do poeta sem voz. Atroz, o Cordel do Fogo Encantado grita que sonhos há, aqui.
Na grandiloquência da ciência que a aquiescência dá, brincadeiras se incandescem
em burburinhos feito os ovos passarinheiros surgem nos ninhos de um já morto janeiro.
Na luz da veia, vertigens ligeiras. Só irá desmaiar quem em si não conseguir se
ouvir. Daqui, algo, decerto, ainda haverá de surgir.
IV
-- Como esperar que algo surja
de bom no beneplácito do tempo enfumaçado?
-- Não espere. Do segundo
seguinte nada há a se esperar. Viva o agora que logo poderá ser nada ou apenas finito
depois. Se dispa de crenças e esperanças, surgir de salvadores e odores de
suores e corpos quentes a se trocarem em beijos e líquidos. Se deixe liquefeito
como fosse tudo perfeito. Refeito da realidade, se jogue na própria cidade.
Embriague-se. Faça da dor, como diz o poeta, “da madrugada um samba”. Bambo, na
corda bamba da vida, balance na insípida retina. Enxergue enquanto há algo a
olhar. Respire o odor que possa te pirar. Aqui ou em qualquer lugar, transborde
de gargalhar bêbado e ébrio. Afinal, o que é a realidade além de um mero tédio?
No prédio, certamente, mora alguém no seu etéreo presídio e credo.
V
Os atabaques tocam e entortam
trajetos dos fetos que nunca nascerão e bordões das famélicas diásporas do
senão. No sumidouro que se perfaz e apraz, os sons do Nordeste preste a lembrar
que há uma carta nunca escrita assim: “Que merda que tudo se deu. Coisa cortada
de forma uníssona por duas tias que se arvoraram em ser donas da verdade e do
destino futuro. E cravaram que ‘daqui nada vai sair’. Afinal, quem lhes deu
esse direito? Crias doidas em genes passados? Mas tem que ser tudo assim, fato determinado?
A ciência hoje diz que não. Mas o que esperar de ambas num tempo sombrio? Que
na eternidade estejam felizes no seu varal. Afinal, alguém, nalgum lugar,
escutou seus sinais.”
VI
Gedeão, irmão de perdão, anfitrião
da solidão, pede um momento de ser ouvido.
-- Vamos tocar a boiada? Afinal
de nós pouco ou nada mais se espera.
-- Monta logo no tordilho e segue
a trilha esturricada de seca e louvor.
-- Que assim seja, meu irmão.
No trote dos passos dos
quadrúpedes descompassados, vão ambos na doidivanas vida a gastar minutos
que ainda têm de viver, a ver. No pisar das ferraduras duras que se prendem com
pregos nos animais, a certeza incerta de que viver é ser. Seja lá o que isso
for. Na tela esteta e cadavérica de toques de letras negras ou pretas, algo viaja
das cabeças ao se largar no insípido lagar.
VII
No táxi lunar um Uber que sequer
saiu do lugar trafega trôpego e sôfrego no nunca feito viajar. Diáspora
anacrônica e cômica do que existe entre ser e desejar, balaústres bailam a soprar
no incongruente da mente a criar. Na compaixão que a paixão povoa sem saber aos
tristes o que dizer, a procissão proseia com Deus o adeus que se dá a cada
chegar. No frevo que surge a cada mulher, a brejeira satisfação de que para ser
feliz basta se crer na solidão.
(Com nordestinos cantores e seus louvores)