sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Descobertas às cobertas

 Por Ronaldo Faria

 
-- Pra virar parceria acho que faltou maestria. Ou um cara mais ligado do logon.
-- Mas uma só canção já não está bom?
-- Se você pensar num só tom, tá.
-- Então já foi. Está tudo nos conformes: escreveu, publicou, fez música, plantou árvores, teve filhos, amores, dores, alegrias e vida. Até a dor da morte. Deu!
-- Tem razão. Só nasci no tempo errado. Onde foda se faz sem antes se ouvir um fado. Fosse antes... até flores surgiriam nas mãos da amada.
-- Não existe antes. É só o agora e aquilo que foi. O resto é delirar. Para e pensa: cada um no seu quadrado. Você até que avançou bem além.
-- Amém! Oxalá!
 
II
 
-- Next year, baby!
-- Uai?
-- Nada. Só queria delirar que falo a língua do opressor.
-- Deveria ter pensado isso décadas atrás.
No derredor, sob um sol escaldante e flamejante, o casal se acasala agora no chão da churrascaria a servir a melhor peça bovina da Argentina.
 
III
 
O Carnaval está chegando e o oceano que bate em Recife surge e ressurge, ruge e urge nas costas que trazem até tubarões. Em Olinda, essa coisa repetitivamente linda, casarios e rios de lágrimas descem e sobem ladeiras nas maneiras que se há, a beber delírios. Na vaga devassa que desabrocha da rosa esturricada, a calada prosa que se arranca da voz calada do poeta sem voz. Atroz, o Cordel do Fogo Encantado grita que sonhos há, aqui. Na grandiloquência da ciência que a aquiescência dá, brincadeiras se incandescem em burburinhos feito os ovos passarinheiros surgem nos ninhos de um já morto janeiro. Na luz da veia, vertigens ligeiras. Só irá desmaiar quem em si não conseguir se ouvir. Daqui, algo, decerto, ainda haverá de surgir.
 
IV
 
-- Como esperar que algo surja de bom no beneplácito do tempo enfumaçado?
-- Não espere. Do segundo seguinte nada há a se esperar. Viva o agora que logo poderá ser nada ou apenas finito depois. Se dispa de crenças e esperanças, surgir de salvadores e odores de suores e corpos quentes a se trocarem em beijos e líquidos. Se deixe liquefeito como fosse tudo perfeito. Refeito da realidade, se jogue na própria cidade. Embriague-se. Faça da dor, como diz o poeta, “da madrugada um samba”. Bambo, na corda bamba da vida, balance na insípida retina. Enxergue enquanto há algo a olhar. Respire o odor que possa te pirar. Aqui ou em qualquer lugar, transborde de gargalhar bêbado e ébrio. Afinal, o que é a realidade além de um mero tédio? No prédio, certamente, mora alguém no seu etéreo presídio e credo.
 
V
 
Os atabaques tocam e entortam trajetos dos fetos que nunca nascerão e bordões das famélicas diásporas do senão. No sumidouro que se perfaz e apraz, os sons do Nordeste preste a lembrar que há uma carta nunca escrita assim: “Que merda que tudo se deu. Coisa cortada de forma uníssona por duas tias que se arvoraram em ser donas da verdade e do destino futuro. E cravaram que ‘daqui nada vai sair’. Afinal, quem lhes deu esse direito? Crias doidas em genes passados? Mas tem que ser tudo assim, fato determinado? A ciência hoje diz que não. Mas o que esperar de ambas num tempo sombrio? Que na eternidade estejam felizes no seu varal. Afinal, alguém, nalgum lugar, escutou seus sinais.”
 
VI
 
Gedeão, irmão de perdão, anfitrião da solidão, pede um momento de ser ouvido.
-- Vamos tocar a boiada? Afinal de nós pouco ou nada mais se espera.
-- Monta logo no tordilho e segue a trilha esturricada de seca e louvor.
-- Que assim seja, meu irmão.
No trote dos passos dos quadrúpedes descompassados, vão ambos na doidivanas vida a gastar minutos que ainda têm de viver, a ver. No pisar das ferraduras duras que se prendem com pregos nos animais, a certeza incerta de que viver é ser. Seja lá o que isso for. Na tela esteta e cadavérica de toques de letras negras ou pretas, algo viaja das cabeças ao se largar no insípido lagar.
 
VII
 
No táxi lunar um Uber que sequer saiu do lugar trafega trôpego e sôfrego no nunca feito viajar. Diáspora anacrônica e cômica do que existe entre ser e desejar, balaústres bailam a soprar no incongruente da mente a criar. Na compaixão que a paixão povoa sem saber aos tristes o que dizer, a procissão proseia com Deus o adeus que se dá a cada chegar. No frevo que surge a cada mulher, a brejeira satisfação de que para ser feliz basta se crer na solidão.
 
(Com nordestinos cantores e seus louvores)

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