Por Ronaldo Faria
Escrever para um público
diverso, complexo e quem sabe etéreo ou esotérico, de lugares múltiplos do planeta,
a falar da palavra saudade é maldade ou sacanagem. Afinal, tal palavra e lavra
só existem na língua portuguesa. Logo, fico a pensar: como o resto do povo desse
mundo grandão sente essa dorzinha encardida que vem e fica, se mortifica e
quantifica coisas inenarráveis que cortam feito navalha na carne e na alma? No
meu caso, quero chegar talvez aos 80 e ainda chorar em alguns caixões. Logo, ter
saudades mais. Mas como tudo é improvável e determinado em segundos, sei que
tal coisa é só querer. Assim como tantos (e os médicos também) falam que amanhã
pode ser algo nunca chegado. Sem carícia, beijo ou afago. No catado das emoções,
unções e presunções, famélicas e angelicais estradas nunca trilhadas ou tracejadas
em dor. No céu, o voo do condor vai e volta em volteios de só bossa (ou bosta).
Escrever para se entreter no
solene “eu em mim mesmo”, parece coisa de alcoólatra diametralmente lúcido após cada
ressaca dessas que as praias da Zona Sul carioca sabem o que são. Mas o que
seria das ondas se apenas chegassem, se jogassem nas areias quentes e deixassem
de ter vontade de voltar ao mar? Não haveria o som universal que em cada
continente chega assim, de repente, num rompante de espuma, e fica na cabeça e
ouvidos da gente. Crente e temente ao Deus que habita no interior da loucura própria,
feito hóstia que o ateu toma a se ver em desespero, o que vem é resto e arresto
de história. Canseira de memória, quase peremptória. Na lucidez e clarividência,
quase demência senil que surge, o mundo que urge dentro de si sentencia a
luxúria à turba que espera o tempo derrear.
Escrever para continuar a
viver é uma missão. Tipo aquela que se faz transversa numa reta irretocável e
fértil a fertilizar a vida que tenta brotar a cada sentença. Na demência das horas onde segundos segundam a chegada de minutos e esses de fugidios
dias e meses, anos a brotarem de um calendário que o dromedário do deserto seco
nem sabe existir, vamos a brincar de escrever e somatizar solidões e – porque não
dizer – saudades. Nas vestes que travestem seres e seus amores, sejam esses
quais forem, pois o desejo não é preso a gêneros efêmeros e finais, surjam
versos e poesias, heresias e frevos vindos da mais benvinda orgia. Daqui, entregue
ao cheiro da noite notívaga, a saber que o próximo dia irá cobrar tal fantasia,
vamos a bailar e mentir que o antônimo de saudade é felicidade. Será?
Na noite assombrada pelo som do passado, o gosto amargo de ter saudade até morrer...

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