quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Notícias de um Brasil

 Por Ronaldo Faria

 

-- E aí, me manda notícias do Brasil!
-- Boas ou ruins?
-- Tem escolha?
-- Não.
-- Então, manda ver.
-- Vai lá. Primeiro as boas. No final desta semana recomeça o Carnaval. Quer dizer, o oficial. Ele mesmo já está rolando extraoficialmente desde janeiro. Ou seja, gente na rua lotando blocos e ruas, avenidas. Muito agarra-agarra, beijos e sorrisos. O sol está ajudando e muito. Tem batido os 40 graus pela manhã, 50 ao meio-dia e fica nessa batida até o anoitecer. Aí cai para uns trinta e tantos, para aliviar a cuca da moçada que ninguém é feito de carvão em brasa.
-- Porra, então é o bicho!
-- Com certeza. E põe bicho nisso. Na verdade, as apostas nesse velho jogo tradicional estão à mingua. Apesar da atual longevidade da população, velhos saem menos de casa para apostar. Falta de grana e medo da violência. A onda agora por aqui é jogar a sorte no celular. Aposta na encolha e perde-se e ganha-se que nem. Quer dizer, ainda mais se perde. Mas essa não é a lógica do jogo?
-- Deve ser. Mas conta mais coisa boa.
-- Apesar do verão causticante, não faltou cerveja no mercado. Só não bebe quem não quer.
-- Aí sim...
-- As praias estão lotadas de gente morena, sorrinte, entregue às ondas e a possibilidade do amor carnal, espiritual ou similar. Daqui a nove meses veremos no que deu tudo isso.
-- O amor é lindo!
-- Decerto. Incerto é o sofrimento do depois.
-- Parou por aí?
-- Não. O samba de raiz, independente da época do ano, continua no coração da gente. A bossa nova também tem seu pedaço no batuque das emoções. Há senões também. Surgiu muita coisa ruim como “canção”. Mas aqui vou falar só das coisas boas. Deixe o restante esquecido. Ah, ainda estamos numa democracia. Frágil, quase pueril, onde os poderosos continuam a viver no céu das benesses e vários porcentos e o povo sobrevive das migalhas que caem daqui e acolá. Mas tem sobrevivido o tal de voto e coisa e tal. Ou seja, os eleitos de hoje são, pelo visto, cara e desejo da vontade popular. Quem sabe no próximo ano o tal de Congresso não terá gente a pensar mais no povão... Só que acho que não.
-- Vale torcida?
-- Claro que vale.
-- Então já comprei a camisa oficial e a bandeira pra na arquibancada da democracia vibrar e torcer que cada um veja no voto a sua própria vida.
-- As matas resistem à morte e a serra elétrica, em menor número e verde, mas se espraiam verdes e lindas, não tímidas, no que restou. Tem uma ou outra cachoeira a verter das montanhas água boa, praias com peixes, mesmo com seus plásticos a vomitar, um pássaro ou outro que chega nas manhãs para cantar sua paz.
-- Nossa, deu até vontade de voltar.
-- Não faça isso. Agora vou começar a falar das coisas ruins.
-- Precisa?
-- Foi você quem pediu. Lembra?
-- Mas acho que agora não quero ouvir. Melhor não. As coisas aqui estão meio ruins. Querem expulsar todos nós. Uma tal de xenofobia, como se o ser humano não fosse desde seus primórdios e surgimento um caminhante errante na busca de vida melhor. Trabalhamos no subemprego, ralamos por poucos centavos o sonho do sonho ultramarino ou continental, passamos apertos e saudades mil. Mas acreditamos que aonde agora há dor um dia existirá clamor de vitória e fé. Dá pra ficar só nas coisas boas?
-- Vá lá. Vou quebrar teu galho.
-- Obrigado. Valeu.
-- Opa, pera aí. Esqueci algo importante.
-- Puta merda, que não seja bosta!
-- Não é. O Flamengo está foda esse ano!
-- Meu Deus, aí você salvou minha semana de vez. Vida longa ao nosso Mengão! Mas agora deu o horário de descanso, vou ter de desligar.
-- Tudo bem. Valeu te ouvir.
-- Valeu por mim. E lembra: as coisas ruins guarda só pra ti. Ser brasileiro à distância é, como diz o hino, florão da América, iluminado ao sol do Novo Mundo! Fui!
 
(No som do grande Eduardo Gudin e Notícias Dum Brasil 3 Tempos)

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