domingo, 25 de outubro de 2026

Country e blues se encontram com dois gigantes*

 Por Edmilson Siqueira 


Willie Nelson, o rei do country dos Estados Unidos, gravou, em 1984, um show especial, ao vivo, tendo como convidado ninguém menos que Ray Charles. O encontro, que pode parecer inusitado para fãs de um ou de outro aqui no Brasil, não é uma coisa incomum por lá. Isso porque tanto o country quanto o blues têm raízes semelhantes (embora um seja mais da música digamos "branca" e outro tenha sua origem no canto africano dos escravos. O que os aproxima, é sua linguagem popular, sua origem nas raízes afronorte-americanas. 
Ray Charles mesmo, no seu segundo ou terceiro LP, depois de já aclamado como um grande cantor e compositor, foi buscar no country inspiração para o trabalho seguinte. Está no ótimo filme sobre sua vida ("Ray"). Um dos seus grandes sucessos, "I Can't Stop Loving You" é música country. Ou seja, o gênero não lhe é estranho. 
E há outros exemplos: o maior sucesso de Whitney Houston -" I Will Always Love You" - é puro country que ela sofisticou com uma notável interpretação.  O rock também bebeu da mesma fonte: Elvis Presley, quando sua carreira não andava tão bem, gravou um LP inteiro cheio de country e voltou ao sucesso. 
E aqui mesmo já comentei um disco que tenho, que juntou Willie Nelson e Wynton Marsalis, um músico totalmente dedicado ao jazz. E o disco é ótimo. 
Portanto, esse encontro parecia destinado a acontecer. E aconteceu com uma afinidade que, se não surpreende agrada e muito, provando que, por trás das classificações que a música engloba, as fronteiras podem ser superadas por uma linguagem comum.   
Willie Nelson, hoje com 93 anos, é, como se sabe, uma das figuras mais singulares da música country norte-americana, cantor, compositor e violonista de estilo inconfundível. Sua trajetória ganhou uma dimensão especial nos anos 1970, quando passou a representar uma alternativa ao country mais polido e comercial de Nashville. Associado ao movimento conhecido como outlaw country, Nelson cultivou uma imagem de independência artística, privilegiando interpretações pessoais, arranjos econômicos e repertório capaz de aproximar o country tradicional de outras vertentes da música norte-americana. 
Ray Charles, que morreu em 2004, aos 73 anos, era pianista, cantor, compositor e arranjador que revolucionou a música popular ao aproximar o gospel, o blues, o jazz, o rhythm and blues e a música country. Sua maneira de cantar, alternando a aspereza emocional com a delicadeza, tornou-se uma referência para gerações de intérpretes.  
Seu álbum Modern Sounds in Country and Western Music, de 1962, demonstrou que canções countries podiam ganhar novas dimensões quando interpretadas com arranjos orquestrais, inflexões de soul e a liberdade expressiva característica de Charles. O sucesso do projeto ajudou a ampliar o público dessas composições e revelou a afinidade entre tradições que, à primeira vista, pareciam distantes. 
A reunião dos dois acabou sendo não apenas uma atração entre duas celebridades da música: foi uma oportunidade de observar duas trajetórias extraordinárias convergindo em torno de canções que ultrapassaram as fronteiras de seus estilos originais. 


O especial, cuja gravação varia entre 1984 e 84, tem o charme dos especiais musicais produzidos para a televisão. Em aproximadamente uma hora, a música se alterna com momentos de conversa, descontração e referências às origens texanas de Nelson. O DVD chegou ao mercado por volta de 2009, trazendo inclusive cenas de ensaio antes da apresentação ao vivo.  
O programa apresentou treze números musicais, incluindo sucessos de Willie Nelson, standards da música popular e interpretações associadas à trajetória de Ray Charles. A seleção é um dos grandes méritos do DVD, pois permite que os dois artistas se encontrem sem que nenhum deles precise renunciar à própria personalidade.  
Ouvir Nelson e Charles compartilhando esse repertório é particularmente interessante porque permite reconhecer as diferenças entre os dois. Willie não tenta imitar Ray, nem seria necessário fazê-lo. Sua presença oferece uma perspectiva mais country, enquanto Charles preserva a interpretação que o tornou célebre. 
Para admiradores de Willie Nelson, é uma oportunidade de rever um artista em plena maturidade criativa. Para os fãs de Ray Charles, é a chance lembrar sua extraordinária versatilidade em um ambiente intimista. E, para quem simplesmente gosta de grandes canções bem interpretadas, o espetáculo é uma lição de musicalidade que proporciona muito prazer ao ouvi-lo e vê-lo. 
O DVD apresenta algumas atrações além do show em si e vale a pena assisti-lo na íntegra. Segue o repertório: 
- On The Road Again (Willie Nelson) 
- Always On My Mind (M. James e J. Christopher) 
- Angel Eyes (E. Brent e M. Dennis) 
- Seven Spanhish Angels (Seals e Setser) 
- I Can't Stop Loving You (Don Gibson) 
- Georgia On My Mind (Carmichaesl e Gorrel) 
- Mountain Dew (Lunsford e Wiseman) 
- My Window Faces The South (Livingston, Parish e Silver) 
- There Will Never Be Another You (Gordon e Warren) 
- To All The Girls I've Loved Before (H David e Hammond) 
- Without A Song (Elisco, Rose e Youmans) 
- Who'll By My Memories (Willie Nelson e E. Noack) 
- Whiskey River (John Shinn) 
O DVD pode ser comprado nos bons sites do ramo. Há várias músicas isoladas do DVD no YouTube, mas não encontrei o DVD completo. 

*A pesquisa para este artigo teve auxílio da IA do ChatGPT 

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