Por Ronaldo Faria
Junta, povão, suas mãos. Une
corpos, solfejos, mil sóis e cortejos. Ensejos e sonhos mil. Grita de peito
aberto ao que é certo. Por certo ou decerto o silêncio a derredor não se fará decreto
à dor para ela dar lugar à paz. Mas de cada garganta surtirá e surgirá o louvor
de ser. Por isso, arrisca surtar na brincadeira de surfar na própria loucura.
Olhos atentos aos tentos e intentos do craque a performar pelas quatros linhas na
volúpia do drible, do toque, da certeza inexata de ser.
Une, povão, ao calendário
crível, a oração idílica que dá a certeza da vitória incerta, com ou sem hóstia
para engolir. Junta pesadelos diários, contas atrasadas, estradas malfadadas, sinopses
de vida, e faz verter em crenças as descrenças do dia a dia a correr. Bole com
a bola que percorre as íris e rola daqui para ali e de lá para cá. Chuta com o
artilheiro que agora irá comprar uma casa para sua mãe e vibra pelo primeiro
beijo da Maria qualquer calçada de chuteira 42.
Junta e une, une e junta,
povão, a labuta de horas perdidas nos ônibus cheios, trens lotados, caminhadas
sem fim sob o calor escaldante e cartões que batem em máquinas sórdidas e óticas
na fechadura que habita olhos dos chefes de seção. Corre e percorre cada
segundo na certeza do horário de chegar, almoçar, mijar e voltar às voltas de
tentar chegar. Cata e cutuca cada pedaço que sobrar no solapar da realidade.
Afinal, lá na frente, haverá um dormir no que ainda sobrar.
(Com Jobim e Gershwin sob o som do BR6)
