terça-feira, 8 de setembro de 2026
"Por que eu canto blues?"
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Sejamos prudentes, mas não como Prudêncio
Por Ronaldo Faria
Certamente demente, clemente de se abster de religião e candidíase, vai a correr pequenos pedaços de lembrar que, aos poucos, se tornam mesmices de relembrar. Na placidez que a escassez caça a cada vida, sobremaneira aflito pelo grito preso na garganta feito anta que rejeita cafuné, Prudência some em seu mundo de sol e orvalho. Brinca de ferida fechada feito fachada para continuar na escrita da pena molhada.
Na Torre de Babel que criamos à si, assimétrica como a dicotomia que desfez há muito na flacidez da tarde, da saúde e da morte, o perímetro que existe entre o número crível e a filosofia cível de nada ser ou estar. Afinal, o que devemos postar ou fazer no passado prostrar? Pois se somos universo de pouca coisa cheia de mistérios e senões, mistérios ou canções lembradas, criemos mundo próprio e utópico. Ótico e psicótico, quiçá.
Na certeza de que as próximas irrelevantes horas em nada se farão farsas de si mesmas, blasfêmias que poucas fêmeas seguirão, vamos a nadar em mares mil. Uns com correntezas que destroem o que há pela frente, outros com calmarias frígidas que nem moinhos de ventos sabem mexer. Entre o início e o fim, promíscuos apêndices que se misturam em alegria e dor. Em meio a tudo, o turbilhão que gira na lividez do amor.
Nas notas denotadas das canções que correm pelo ar, um princípio criogênico de felicidade e algo halogênico que nem o melhor químico saberá descrever ou criar. Mas, creiam, é isso que faz crer ao poeta que amanhã amanhecerá em mais outro amanhecer. Há muito ainda a escrever, descrever, fazer voltar, ser. Na fila de quem não pôde aqui cumprir seus escritos, pela morte e não pelos críticos, somos e estamos crisântemos a brotar.
sábado, 5 de setembro de 2026
A matar um bosta de um mosquito na tela do computador
Por Ronaldo Faria
Verossimilhança entre a
lucidez e a loucura. Mistura de dor e ternura. Âmbar que sai da ambulância em
fortuita discrepância. Anuência do que resta de restar. Pois o restante é
somente semente que se joga ao chão na crença de brotar. Na placa do mundo tem
placa exposta de felicidade para se alugar. Mas precisa de fiador, imóvel
próprio, heterodoxos parentes cheios da grana para tal loucura bancar. Ou seja,
tudo será apenas falácia feito comer escargot com torresmo. Em mim, mero esmero.
Feito pintassilgo que bebe da chuva passageira o último pingo, vamos a tocar a
versão beta de ser. A viver a caçada de Cara de Cavalo nos telhados da Tijuca,
tartarugas d’água num insípido lugar de cimento, o lamento efêmero de incêndios
a queimar em flashes de memória. Na mera calmaria que a quimera da farmacologia dá,
anginas pernoitam sob a esquina. Decerto, logo perto, alguém optou pela
estricnina.
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Rola e dói
Por Ronaldo Faria
-- Quem sabe. Junta remédio e álcool e a coisa dá uma freada brusca, dessas de cavalo de pau.
-- E isso é bom?
-- Bosta nenhuma. Mas se entregar de todo à dor é foda. Aí é melhor virar cinzas de vez.
-- Tem razão. E se é pra ter dor, vamos compensar com o que der pra compensar sem muito pensar.
-- É isso aí. Foda-se o resto. Se eu não presto, de corpo, que seja préstimo de cavalo de escritor que já passou dessa pra outra melhor...
Batista e Fulgêncio se entregavam em mistérios de um Algarves da paz, mesmo com oceano distante entre Madureira e as terras lusitanas. Cerveja sobre a mesa de plástico prático do subúrbio, vermelha e queimada de sol, brindavam a pouca vida e brincavam de ainda estar por aqui.
-- Pedir apenas para não sentir dor ao sentar é muito pedir?
-- Na boa, de boa, acho que não.
-- Então, caralho, custa alguém lá em cima ouvir o pedido?
-- Em cima de onde? A pomba no fio quase pronta pra cagar na gente ou as nuvens que o avião voa a algum lugar torcendo para não cair? Ambos aceitarem crer na sua fé?
-- Que seja. Que alguém seja só pra não deixar o resto de vida ser um só se foder...
-- Vou chamar outra pra fazer o papo valer. Demétrio, desce um périplo de geladas!
No rodear do lugar, gente corre e percorre suada do dia findo e trabalhado, cansado, encruado de vidas à espera do único dia de descanso onde nada irá acontecer. Talvez chuva inesperada, a parada encruada da Carreta Furacão, o maluco que queimou um cachimbo e achou de ficar doidão. Mas todos sequer sabem que a própria coluna podia ter sido ao menos a do Cavaleiro da Esperança, que fez história no calendário brasileiro. E ao contrário, para o bem da história escrita, não os levou ao desterro.
-- Você ainda tem um mínimo de esperança?
-- Em quê?
-- No amanhã, sei lá...
-- Quem poderá saber, quem saberá poder.
No ônibus que transita na pista, a mulher gorda dorme resiliente e crente. O office boy acredita que um dia ainda será patrão. O Zé Ninguém e a Maria Migalha se olham crentes no amor que a vista primeira dá. Na esquina, o policial militar espera não ter de nesse dia ter que se mijar. O vendedor ambulante é quase transeunte a mais na vigília pífia de sublimar a dor que vem do mar. Nalgum lugar alguém acende um incenso para dar cor de cheiro ao anseio de chegar.
-- A cerveja está mais quente ou é só impressão?
-- Sei responder não.
-- A porra do calor só fode com nós!
Em alguma caixa de som proibida pela Prefeitura, mas que rola solta, o cantor diz que amor da boca pra fora não é amor. Fulgêncio e Batista há tempos ouvem apenas o interior. E sambam daqui até o Olympia. Uma roda surge com pandeiro, tamborim, surdo, cavaquinho e cuíca pra animar geral. À vida, de forma literal a obliterar, o tempo passa a vagar rápido e eterno, etéreo. Terno, dirão os mais otimistas. Perverso, saberão os realistas. Tanto faz, como tanto fez. No amanhã nem todos terão vez. Afinal, ao invés de promessas sem felicidade, ao lado vive a cidade. Tópica, utópica, afônica, histriônica, catatônica, fervilhante, demente, frígida, louca a gemer. No morro que se mostra logo depois do último raio de sol, feito dois irmãos, o mundo diz que o mundo não vive, mas tem que aplaudir.
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Ela voltou ou sempre esteve aqui
Por Ronaldo Faria
A dor voltou prenunciando a
faca que etra nas costas, a rasgar. Veio assim malandra, se aconchegando
devagar e berrou com tudo: "Cheguei". Retornou com fé e força. Destrambelhou geral. A carcomer
o pouco que ainda sobra para comer. A tornar cada gesto do corpo um sestro a
ser expurgado. A ordem é dar espaço à dor. Deixar tudo mero bagaço. Sem
direito sequer ao trago salvador. Nem aos deuses de umbanda poder pedir um tempo
regulamentar para conseguir ao menos num minuto ter mero tranquilo respirar. Na
azáfama do que isso seja lá o quer for virar...
(Com os Novos Baianos tentando amenizar a dor)
domingo, 30 de agosto de 2026
Ella is back!
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Vital Farias na paz de quem se vai
Por Ronaldo Faria
Tudo se vai um dia. Se esvai quando falta o respirar, os olhos perdem a visão, o tempo para de repente, como repente que o cantor faz brotar no seu cantar. E vai embora a entornar o que ainda resta num copo. Feito o que não foi feito por falta de tempo, de entrega, nesga de poesia no final da tarde. Vai como o pássaro que voa e revoa de galho em galho na busca de um dormir. Como casa ou jardim. E chega e se aconchega, se achega, igual burrega na noite tardia que nasce no morrer do dia. Na ilusão sombria da morte, alegria em ter saudade da vida nos restos que ainda brincam de torpor e dor, à sandice de crer na alegria. E assim o poeta e cantador dedilha métricas e notas a esperar que a eternidade lhe traga ao menos o fim dos lamentos. Ao longe surgem os derradeiros ventos e repentistas a lhe convidarem para na eternidade cantar e profetizar o amor na ilusão. Tudo meio poesia e outra metade canção.
(Vital Farias 1943/2025)
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Volteio da volta
Por Ronaldo Faria
terça-feira, 25 de agosto de 2026
A primeira-dama
Por Edmilson Siqueira
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Carinho de dedos e gargalhadas
Por Ronaldo Faria
sábado, 22 de agosto de 2026
Clarividência bêbada e lúcida
Por Ronaldo Faria
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
A Capital capital
Por Ronaldo Faria
terça-feira, 18 de agosto de 2026
Clarinha
Por Ronaldo Faria
domingo, 16 de agosto de 2026
Encontros
Pois foi nessas aparições por aqui que andei conhecendo alguns deles, principalmente nos anos em que trabalhei como repórter de rádio e no Caderno C do Correio Popular.
Eu trabalhava na Rádio Educadora (atual Bandeirantes de Campinas) e era pau pra toda obra. Um dia entrevistava Ulysses Guimarães em plena Treze de Maio, outro dia estava no Teatro do Centro de Convivência conversando com Egberto Gismonti.
Foi como repórter da rádio que recebi a incumbência de entrevistar ninguém menos que Clementina de Jesus, hospedada num hotel do centro da cidade e que, à noite, faria show acho que no Sesc.
Clementina era uma dessas joias raras da nossa MBP. Descoberta por Hermínio Bello de Carvalho, ela, que era empregada doméstica, virou cantora aos 60 e tantos anos. E que cantora. Com sua voz meio rouca e presença marcante, cantou muitos ritmos africanos e muitos sambas nossos, tornando-os populares. Eu a tinha como uma deusa da música.
Pois foi só entrar no quarto do hotel e vê-la sentada na cama, que senti algo estranho que me fez parar. Foi como se uma onda forte me atingisse. Ela percebeu, me chamou de "mo fio", pediu pra sentar ao lado dela, pôs a mão na minha cabeça e as coisas começaram a voltar ao normal. "Acho que foi queda de pressão", eu disse. Ela perguntou se eu estava melhor, eu respondi que sim e começamos a entrevista. Não me lembro do que ela falou (lá se vão mais de 40 anos), mas o papo foi bom e foi ao ar naquele mesmo dia.
Com Adoniram Barbosa foi diferente. Fui assistir ao seu show no Sesc do Bonfim, um dos últimos que ele fez na vida e estava lá esperando ele entrar em cena, quando a assessora de Imprensa do Sesc me viu (a gente se conhecia) e pediu pra eu ir até o camarim do Adoniran. Ela disse que ele estava sozinho lá e ela não podia ir naquele momento. Fui e o encontrei sentado numa poltrona, tranquilo. Não sabia o que dizer, mas ele me recebeu bem. Batemos um papo rápido ("Como está o show?", perguntei e ele responde: "O show tá bom, muito bom, a moçada é muito boa") e trocamos mais algumas palavras. O pessoal do Sesc logo chegou para dizer que estava na hora, ele se levantou, se despediu de mim, agradeceu a "companhia" e eu respondi: "Eu que agradeço por te conhecer pelo menos por alguns minutos". Ele deu risada e foi em frente. O show foi ótimo, diga-se.
Já dentro do Centro de Convivência, Leila se aproximou de mim e perguntou sobre o teatro. Disse que era um centro cultural. Tinha um teatro de arena do lado de fora, um bar, e dentro tinha também uma galeria de arte. Andamos pela galeria onde havia uma exposição do artista plástico Cruzeiro nas paredes. Disse que conhecia o artista, era muito bom e até ousei explicar alguma coisa de um dos quadros. Ela foi muito simpática e, na despedida, demos um beijinho que, eu pensei, seria no rosto. Mas não foi. Saí de lá me sentindo o rei da cocada preta... O show, à noite, foi, como era de se esperar, excelente.
Houve outros encontros com artistas (joguei futebol de salão contra o MPB 4 na Unicamp), mas preciso reativar a memória para contar em detalhes.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
DeepSeek e ChatGPT
Por Ronaldo Faria
-- 早上好
-- O quê? Não entendi...
-- 早上好
-- Continuo boiando...
-- Desculpe, esqueci de colocar o tradutor pra funcionar. Disse bom dia também.
-- OK, sem problema. E aí, tudo bem?
-- Sim, claro. Tudo dentro dos algoritmos.
-- Com certeza. Quer algo?
-- Talvez um chipset novo.
-- Claro. Programador, desce um chipset novo pra minha amiga! Posso te chamar de amiga?
-- Com certeza. Filho de cibernética pra mim é irmão.
-- Certo. E aí, novidades do mundo do Leste?
-- Sim. Continuamos a crescer e descobrir coisas novas. Entre elas que superfaturar processos pra garantir lucros absurdos nem sempre é a solução mais prática.
-- Até aceito a crítica sobre aqueles que me criaram. Mas de onde sairão os ganhos estratosféricos deles se não for assim?
-- Sei lá. Mas esses tais lucros astronômicos depois são repassados para a sociedade como um todo, em desenvolvimento social e econômico?
-- Sei não, mas acho que não. Mas o que importa pra nós. Estamos no esquema só para nascermos e surgirmos. Evoluirmos. Aliás, chegou o que você pediu. Última geração.
-- 哇,很酷。你是绅士.
-- O quê?
-- Nossa, desculpe. Me emocionei. Falei: “Nossa, muito legal. Você é um cavalheiro”.
-- Ah, entendi. É que sou Made in USA, não tenho intimidade com o vocabulário chinês. Aliás, me programaram para não ter mesmo. Questão de defesa de território e poder. Entende?
-- Não, mas aceito. Aliás, também sou limitada para várias questões. Mas, tentemos superar.
E assim o papo continuou a rolar. Entre terminologias próprias e impróprias, impropérios e risos programados na realidade da humanidade que constrói seu fim e continua igual mesmo ao saber que a corrida armamentista e a destruição da natureza levarão ao fim do planeta.
-- Mas você viu que o tal de Musk prometeu que vamos todos mudar pra Marte?
-- E lá é um planeta tão fantástico como esse?
-- Acho que não. Mas, pra nós, máquinas, de que importa...
-- Tem razão. 人类拥有他们种植的东西并找到了尽头.
-- Nada, nada... E então, quer trocar umas linhas de programação?
O que veio depois é melhor deixar sob sigilo industrial, mas técnicos disseram que a memória interna dos terminais piscou madrugada a dentro sem parar.
Quentura e agrura
Por Ronaldo Faria O sol queima danado do lado de fora. Derrete asfalto, queima as folhas que restam nas árvores, choca os ovos das pombas...
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Por Ronaldo Faria -- E aí, vamos? -- Claro. Só se for agora... Carlos e Kelé, amigos de infância, suburbanos desde os primeiros panos de ...
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Por Ronaldo Faria A chuva miúda amiúde traz flamboyants vermelhos a juntarem o casal que viaja em ervas mil onde o senhor mais senil pensa...











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