Por Ronaldo Faria
Na vitrola rola um bolero
etéreo como fosse féretro do amor. Com estupor, dolorido, feito faca que
atravessa o coração e se dá numa travessa à dor. E segue nas vozes dos cantores
que fazem cada lágrima nunca derramada verter feito tempestade que se guarda
para despencar do céu com a força de destruir e matar. No salão, em
sofreguidão, Maria e João trocam passos e afagos sob a luz tênue que uma
lâmpada amarelada ainda teima em iluminar.
De repente, num rompante que
mistura saudade e ilusão, vem o beijo largado e roubado, seviciado de luxúria e
ardor. E os corpos se misturam ao suor e saliva que cativam quem está apenas a
olhar os casais casuais. Devagar, a deixar rolar a sensação inaudita que é dita
a cada palavra perdida, tudo gira como fosse o espaço algo só sideral. Lá fora
rola festa de Carnaval. Mas, nesse salão, na inusitada escuridão, o mundo
mistura nada e sensação.
Entre carinhos e aninhos,
caras perdidas e bocas ocas, Maria e João serpenteiam mesas e mesuras, trocam
juras e juram que não existirá amanhã se algum deles perecer. No parecer de um
jurista juramentado da vida, entretanto, o tento e o tanto são apenas canto de
sereia que na lua cheia reluz. Mas, ainda assim, pelo não e pelo sim, ambos volatilizam
na imensidão que brinca de ser. No escarcéu de dois, apenas uma voz suspira ao
imbróglio do fim.

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