sábado, 31 de outubro de 2026

Bolerando

Por Ronaldo Faria


Na vitrola rola um bolero etéreo como fosse féretro do amor. Com estupor, dolorido, feito faca que atravessa o coração e se dá numa travessa à dor. E segue nas vozes dos cantores que fazem cada lágrima nunca derramada verter feito tempestade que se guarda para despencar do céu com a força de destruir e matar. No salão, em sofreguidão, Maria e João trocam passos e afagos sob a luz tênue que uma lâmpada amarelada ainda teima em iluminar.

De repente, num rompante que mistura saudade e ilusão, vem o beijo largado e roubado, seviciado de luxúria e ardor. E os corpos se misturam ao suor e saliva que cativam quem está apenas a olhar os casais casuais. Devagar, a deixar rolar a sensação inaudita que é dita a cada palavra perdida, tudo gira como fosse o espaço algo só sideral. Lá fora rola festa de Carnaval. Mas, nesse salão, na inusitada escuridão, o mundo mistura nada e sensação.

Entre carinhos e aninhos, caras perdidas e bocas ocas, Maria e João serpenteiam mesas e mesuras, trocam juras e juram que não existirá amanhã se algum deles perecer. No parecer de um jurista juramentado da vida, entretanto, o tento e o tanto são apenas canto de sereia que na lua cheia reluz. Mas, ainda assim, pelo não e pelo sim, ambos volatilizam na imensidão que brinca de ser. No escarcéu de dois, apenas uma voz suspira ao imbróglio do fim.

Bolerando

Por Ronaldo Faria Na vitrola rola um bolero etéreo como fosse féretro do amor. Com estupor, dolorido, feito faca que atravessa o coração e...