Por Ronaldo Faria
Em Copacabana as ondas sombreiam a escuridão da lua e iluminam a espuma que se espraia na praia onde corpos e cópulas se misturam na madrugada tragada de versos do poeta e versículos do padre pedófilo na missa de amanhã. O travesti ou transgênero descobre seu novo amor no turista que lhe oferece passaporte e cidadania em troca de carícia e torpor. A mocinha recém-vinda do interior se entrega à trégua da vida ao homem que lhe paga um cachorro-quente. O traficante despeja sua raiva na ficante que lhe mostra o resultado do exame positivo de gravidez. O velhinho e seu cachorro e companheiro fiel igualmente velho passeiam alheios a tudo. No fim do turno, o policial civil caga e anda para o derredor.
O garçom solícito solicita que o casal pague a conta antes de ir embora. O vendedor de cangas chega à conclusão que, apesar do calor de mais de 40 graus, ninguém mais irá querer esconder seus pudores. É hora de voltar para o subúrbio. O morador de rua (mendigo para tantos uns) se prepara para dormir e torce para não ser queimado vivo por um playboy da Zona Sul. O ônibus circular circula sem a turba enfurecida a lhe quebrar janelas e portas. O vendedor de chá mate descobre que a pedida agora é outra. “Juvenal, desce outra caipirinha de vodca”, vociferava o garçom puto da vida e cansado ao bartender querendo voltar para casa, no Humaitá. Um pivete na esquina espera o próximo bêbado para arrojar e o motorista de ônibus, suado do dia que não deu trégua no Rio, Rússia, Ucrânia ou Maricá, sonha com a garagem para descansar. Já na Avenida Atlântica a viúva do magistrado agradece poder desfrutar do ar condicionado do seu lar. Seu dia de depois, poder gastar no Shopping Leblon.
Na farmácia 24 horas, localizada em cada duas quadras do bairro, a moça ajuizada pede a pílula do dia seguinte e o homem tarado exige um Viagra genérico que funcione. Na padaria que fecha para reabrir logo mais, o português pede para o padeiro não se atrasar: “São João de Meriti é logo ali, não me venha com desculpas de que o trem descarrilhou”. Um poeta alternativo tenta vender seus poemas quadrados e parnasianos, o hippie perdido no tempo constrói suas miçangas e o escultor de areia monta uma Capela Sistina para que Francisco não morra logo.
O lixeiro corre atrás do caminhão e o atleta de fim de semana persegue seu recorde de dez minutos sem parar. Uma academia 24 horas promete tirar as celulites e culotes da Dona Elvira e a lua cheia no céu fulgura. Em fuga da PM, o ladrão de celular se esconde num bar. O flanelinha ameaça ao incauto motorista do carro riscar. "É só pagar cinquenta contos, patrão. Aí tá limpo." Como cartão postal, Copacabana se prosta no exame de próstata de Sebastião que o tempo não terá tempo pra sê-lo. Isabel vê sua novela evangélica no quarto exíguo de empregada dois por um e o porteiro Jesuíno ressona no prédio velho de rua qualquer. No quarto e sala alugado, Reginaldo abre a geladeira na busca da cerveja minimamente gelada. Sua vizinha, Marinete, se masturba a pensar no colega de repartição federal. Quem é ele? Um tal de Percival. Dizem que é mais um boçal. O taxista xinga o Uber que lhe roubou o cliente demente e a hora desanda a desandar sem hora para acabar. Logo mais, quando o sol decidir voltar para queimar cabeças e cacholas dos cariocas, tudo se repetirá. Em cada segmento e consequência inconsequente de ser. E dessa forma Copacabana se desandará em nada ter. E o dia, perplexo, descobrirá que tem de sobreviver.

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