terça-feira, 20 de outubro de 2026

O berço de Eric Clapton*

 Por Edmilson Siqueira 



O nome do disco - "From the Cradle" (que significa "desde o berço") já revela as intenções de Eric Clapton ao se lançar nessa aventura discográfica. Depois de lançado, em 1994, acabou se tornando um dos momentos mais importantes de sua carreira. Isso porque, depois de vários anos alternando entre o blues, o rock, o pop e as baladas românticas, o guitarrista britânico decidiu dedicar um álbum inteiro à música que havia feito sua cabeça desde a juventude. O resultado foi um trabalho vigoroso, apaixonado e profundamente ligado à tradição do blues americano. 
Mais do que uma coleção de interpretações de clássicos, o disco funciona como uma declaração de amor à música que inspirou Clapton a pegar numa guitarra e que o acompanhou durante toda a sua trajetória. Aqui, ele deixa em segundo plano as experiências de estúdio mais sofisticadas e as composições voltadas para o grande público para se concentrar na força expressiva de um repertório que atravessou gerações. No encarte que acompanha o CD, está escrito: "Esta é uma gravação ao vivo sem 'overdub' ou edições, exceto um duplo overdub em "How Long Blues" e um overdub de bateria em "Motherless Child". Para um disco de 16 faixas, apenas duas usando um recurso técnico usado à larga há muito tempo, é um feito.  
E, claro, a excelência dos músicos e a qualidade das músicas (são clássicos do blues em sua maioria) não necessitavam mesmo de adereços técnicos para mostrar toda exuberância.  
Lançado dois anos depois de "Unplugged", onde um Clapton mais intimista e acústico foi apresentado ao seu já enorme público, e fez grande sucesso. Porém, Clapton não quis repetir a fórmula e sim fazer o que estava sentindo necessidade de fazer.  
Consta que Elvis Presley, quando teve um período de baixa em sua carreira, reuniu um grupo de músicos amigos e gravou um LP só com música country. E voltou soberano à cena. O mesmo fez Ray Charles, no seu terceiro LP. As raízes de Clapton eram outras, mas o sentimento era o mesmo. Por isso ele quis gravar um disco de blues elétrico, sem concessões evidentes às tendências do momento. 
Essa decisão tinha também um significado pessoal. Clapton sempre reconheceu sua dívida com os grandes mestres do gênero, particularmente com Robert Johnson, Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Freddie King e B.B. King. Desde seus primeiros trabalhos com os Yardbirds, passando pelo John Mayall’s Bluesbreakers, pelo Cream e por sua carreira solo, o blues esteve presente em sua linguagem musical. E em "From the Cradle" essa influência ocupa o centro absoluto da obra. 
Uma das características mais marcantes de “From the Cradle” é a opção por gravar as músicas com uma sonoridade essencialmente tradicional. O álbum foi produzido pelo próprio Clapton e privilegia o desempenho dos músicos, a interação entre os instrumentos e a energia de uma banda tocando blues elétrico. Em lugar de arranjos grandiosos ou efeitos de estúdio destinados a modernizar o repertório, encontramos guitarras, baixo, bateria, piano, órgão e instrumentos de sopro trabalhando em função da música. 
O resultado é um disco que procura recuperar não apenas as canções, mas também o espírito das gravações que fizeram a história do blues.  


Clapton já havia demonstrado inúmeras vezes sua capacidade de tocar blues com autoridade. Em "From the Cradle", contudo, ele se permite mergulhar de maneira ainda mais direta na linguagem dos mestres que admira.  
É importante lembrar que o blues não depende apenas da habilidade técnica. Sua essência está na maneira como o intérprete transforma sentimentos em som. Uma nota prolongada, uma pausa inesperada ou uma frase vocal ligeiramente áspera podem transmitir mais emoção do que uma sequência inteira de passagens complicadas. Clapton conhece bem esse princípio e faz dele um dos fundamentos do álbum. 
O repertório de “From the Cradle” reúne dezesseis composições que ajudam a compreender a diversidade do blues. Há canções marcadas pela melancolia, números de andamento acelerado, histórias de abandono amoroso e interpretações que exploram a tensão entre a voz e a guitarra. A sequência do álbum foi cuidadosamente construída para oferecer diferentes atmosferas sem perder a unidade estilística. 
O álbum foi gravado nos Olympic Studios, em Londres, com Clapton acompanhado por músicos experientes, entre eles Andy Fairweather Low nas guitarras, Dave Bronze no baixo, Jim Keltner na bateria, Chris Stainton nos teclados e Jerry Portnoy na harmônica. Os sopros foram arranjados pelo grupo The Kick Horns, grupo criado na década de 1980 por Simon C. Clarke e Tim Sanders.  
As 16 faixas do CD são as seguintes: 
1. Blues Before Sunrise (Leroy Carr) 
2. Third Degree  (Eddie Boyd e Willie Dixon) 
3. Reconsider Baby (Lowell Fulson) 
4. Hoochie Coochie Man (Willie Dixon) 
5. Five Long Years (Eddie Boyd) 
6. I'm Tore Down (Sonny Thompson) 
7. How Long Blues (Leroy Carr) 
8. Goin' Away Baby (James A. Lane) 
9. Blues Leave Me Alone (James A. Lane) 
10. Sinner's Prayer (Lowell Fulson e Lloyd Glenn) 
11. Motherless Child (Tradicional; também associado ao bluesman Barbecue Bob) 
12. It Hurts Me Too (Elmore James) 
13. Someday After a While (Freddie King e Sonny Thompson) 
14. Standin' Round Crying (Muddy Waters) 
15. Driftin' (Charles Brown, Johnny Moore e Eddie Williams) 
16. Groaning the Blues (Willie Dixon) 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra em https://www.youtube.com/watch?v=ZWJAzwdYQt8&list=PLAEGr31zDLTTHKvQzsqMyAz_FckTFVfpV . 
*A pesquisa para este artigo teve auxílio da IA do ChatGPT. 

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