Por Edmilson Siqueira
"Keith Richards cheirou as cinzas do próprio pai". Essa frase andou circulando por aí por um bom tempo. E não era pra achá-la um absurdo, afinal, o Rolling Stone era famoso por ser um grande consumidor de drogas aspiráveis. Claro que aspirar cinzas, seja do que ou de quem for, não é uma atitude, digamos, saudável. Claro que aspirar drogas também não é, mas a consequência de uma deve ser bem diferente da outra. Digo "deve ser" porque jamais cheirei qualquer droga (se tivesse cheirado eu diria tranquilamente). Imagino que cocaína, por exemplo, deva dar uma sensação prazerosa em quem a cheira e cinzas, bem, cinzas deve ser horrível.
Pois a história de que Keith havia aspirado os restos mortais transformados em cinzas de seu pai correu o mundo, a ponto de até Ruy Castro, em sua coluna da Folha, um dia ter escrito isso, no meio de um texto pertinente.
Como tenho com Ruy uma espécie de amizade epistolar (nós só nos encontramos uma vez, em Campinas, para uma entrevista e, alguns anos depois iniciamos uma esporádica correspondência por e-mail que já dura mais de 30 anos e uns duzentos e-mails), escrevi pra ele dizendo que a coisa não era bem assim, que Keith não cheirou as cinzas do pai como andaram dizendo por aí.
E, para comprovar, mandei o trecho do livro "Vida", autobiografia do velho Stone. Está lá a história, na página 610: "Bert tinha morrido em 2002, mas a memória dele foi abalada antes de Doris (a mãe de Keith) por causa de uma grande história criada na imprensa por um jornalista que alegou que eu revelara ter cheirado um pouco das cinzas do meu pai junto com uma linha de cocaína. Houve manchetes, colunas, editoriais sobre o canibalismo, foi um ressurgimento daquela velha indignação puritana contra os Stones. Dizem que John Humpphrys perguntou ao vivo no rádio no horário nobre: 'Você acha que desta vez Keith Richards foi longe demais?' Mas o que ele quis dizer com desta vez? Também houve artigos dizendo que aquilo era algo perfeitamente normal, que a ingestão dos nossos ancestrais era algo que remontava à Antiguidade. Havia duas escolas de pensamento. Como sou macaco velho, declarei que a coisa tinha sido tirada fora do contexto. Nem neguei, nem confirmei. "A verdade é que" - lia-se num memorando que escrevi para Jane Rose quando a história ameaçou fugir do controle - "depois de guardar as cinzas do meu pai numa caixa preta por seis anos, e porque eu realmente não tinha coragem de espalhá-las ao vento, eu finalmente resolvi plantar um carvalho-vermelho ao redor do qual eu espalharia as cinzas. Quando destampei a caixa, um pouco das cinzas dele voaram e foram parar na mesa. Eu não podia simplesmente espanar meu pai, então passei o dedo nas cinzas e cheirei o resíduo. O pó retorna ao pó, o pai retorna ao filho. Ele agora está ajudando um carvalho a crescer e, tenho certeza de que teria ficado muito orgulhoso disso".
Ruy me respondeu, brincando, que quando a lenda é melhor que a história real, publica-se a lenda.
Mas, como se vê se vê há um pequeno fundo de verdade na história que, obviamente, foi aumentada às alturas por alguém em busca de publicidade (fosse atualmente, eu diria de "likes" e compartilhamentos) até virar uma lenda. O fato é que, com ou sem cinzas, Keith Richards, Mick Jagger e Ron Wood continuam na ativa para alegria geral do milhões de apreciadores do bom e velho rock'nd roll.


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