terça-feira, 3 de novembro de 2026
Uma orquestra histórica e uma grande cantora*
segunda-feira, 2 de novembro de 2026
Van Gogh
Por Ronaldo Faria
A pergunta de Galileu de repente soou lúdica e incisiva na mesa de bar.
-- Como é que é?
-- Isso. Ser reconhecido apenas quando bater as onze...
-- Sei, sei. Fausto, desce mais algumas que o amigo aqui começou a delirar.
Na roda de amigos, seis ao todo, Galileu (recebera o nome em homenagem do pai que queria ver seu filho ser genial) viajava na maionese temperada que abastecia as batatas fritas já frias.
-- É foda, mas é verdade. Tem gente que só vira celebridade depois da morte. Chega um alguém que você nem sabe quem é e tal e descobre que o defunto era foda, mas ninguém dava conta de saber em vida.
-- Entendo. Posso encher o copo?
-- Claro, caralho. Mas vocês não concordam comigo?
Uma votação rápida é feita na mesa e o placar dá quatro a um favoráveis à tese do futuro fenômeno. Galileu, é óbvio, não votou. Somente Juvenal discordou.
-- Porra, Juva, qual foi a sua?
-- Galileu, de boa, se em vida você não virou, não vai ser na morte, quando nem poderá se mexer, que mudará de posição.
-- Mas, meu, pra virar celebridade não precisa se mexer depois de virar comida de verme.
-- Galileu, eu discordo. Posso? Você ganhou a votação. Já pode se considerar um Renoir.
-- Vai à puta que te pariu! Não sabe brincar não vem pro parquinho!
Nas mesas do lado a rolarem soltas e coitas na noite quente da Lapa, o papo é sobre Oscar, prisão de capitão e o samba que vai arrebentar na avenida.
-- Vamos fazer o seguinte: todo mundo concorda que 19 não são 20?
Dessa vez deu seis a zero. Galileu pôde votar.
-- Então, meu cacete duro e roliço, chega de querer prever o futuro. Ninguém aqui tem brevê de cartomante e nem jeito pra mãe de santo. Então vamos encher a cara que Carnaval é só uma vez por ano! Fausto, traz logo um balde com doze long neck que é pra esses merdas pararem de discordar. E repete a batata, mas completa com uma porção de calabresa apimentada e acebolada.
Ao pedido, creiam, as mesas mais próximas aplaudiram. Galileu, o futuro Van Gogh em infortúnio fortuito, ergueu o copo para todos brindarem. Na vida que a perfídia traduz, uma pomba resolve cagar e um cachorro vira-lata para no lugar à espera que alguém o possa alimentar. E o bar? Ah, o bar é só mais um bar...
sábado, 31 de outubro de 2026
Bolerando
Por Ronaldo Faria
Na vitrola rola um bolero
etéreo como fosse féretro do amor. Com estupor, dolorido, feito faca que
atravessa o coração e se dá numa travessa à dor. E segue nas vozes dos cantores
que fazem cada lágrima nunca derramada verter feito tempestade que se guarda
para despencar do céu com a força de destruir e matar. No salão, em
sofreguidão, Maria e João trocam passos e afagos sob a luz tênue que uma
lâmpada amarelada ainda teima em iluminar.
De repente, num rompante que
mistura saudade e ilusão, vem o beijo largado e roubado, seviciado de luxúria e
ardor. E os corpos se misturam ao suor e saliva que cativam quem está apenas a
olhar os casais casuais. Devagar, a deixar rolar a sensação inaudita que é dita
a cada palavra perdida, tudo gira como fosse o espaço algo só sideral. Lá fora
rola festa de Carnaval. Mas, nesse salão, na inusitada escuridão, o mundo
mistura nada e sensação.
Entre carinhos e aninhos,
caras perdidas e bocas ocas, Maria e João serpenteiam mesas e mesuras, trocam
juras e juram que não existirá amanhã se algum deles perecer. No parecer de um
jurista juramentado da vida, entretanto, o tento e o tanto são apenas canto de
sereia que na lua cheia reluz. Mas, ainda assim, pelo não e pelo sim, ambos volatilizam
na imensidão que brinca de ser. No escarcéu de dois, apenas uma voz suspira ao
imbróglio do fim.
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Aquarela brasileira
Por Ronaldo Faria
Cerveja de morango e maracujá é verdade.
IPA seja o que disser que for, saudade.
Clarividência à essência, meio formicida.
Na cidade etérea, pense pênsil em mim.
Na próxima parada, a dor da amada.
Cascata inexata que flui para cima.
Na ressaca de Zona Sul, estaremos. Estarei.
Na espuma da bruma, o prumado real.
Brincadeira de eira e beira, à beirada do mar.
Estar no Rio e longe se fazer eclipsar.
Nos passos da eterna amada, caminhar.
No fulgor do sol, a filha rever no brotar.
Num corpo inerte, emergir e submergir.
Afinal, o mundo é um poço sem fundo.
Etéreo, fugaz, naquilo que ainda tem.
Na vida insolúvel, só resta vaivém...
terça-feira, 27 de outubro de 2026
Junto e separado
Por Ronaldo Faria
domingo, 25 de outubro de 2026
Country e blues se encontram com dois gigantes*
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
À confraria
Por Ronaldo Faria
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Sei lá e tralalá...
Por Ronaldo Faria
Ferdinando, desses que são
meandros de qualquer luz, sabe que não dá muito pra esperar da amada
ensandecida pela morte em vida de seu verdadeiro dedo a esquerda casado. Para
ele, falciforme de emoções, pedinte do não, pouco resta de antemão.
Paremos? Apesar de mais mililitros
disponíveis aos níveis esotérico e feérico, genéricos no congelador, a criar, o
corpo pede o que pode dar. Certamente, no pouco cérebro doidivanas e tacanha, a
mensagem de antemão é que logo estará a desandar.
terça-feira, 20 de outubro de 2026
O berço de Eric Clapton*
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Gedeão, senão
Por Ronaldo Faria
sábado, 17 de outubro de 2026
Saudade é palavra sacana
Por Ronaldo Faria
Escrever para um público
diverso, complexo e quem sabe etéreo ou esotérico, de lugares múltiplos do planeta,
a falar da palavra saudade é maldade ou sacanagem. Afinal, tal palavra e lavra
só existem na língua portuguesa. Logo, fico a pensar: como o resto do povo desse
mundo grandão sente essa dorzinha encardida que vem e fica, se mortifica e
quantifica coisas inenarráveis que cortam feito navalha na carne e na alma? No
meu caso, quero chegar talvez aos 80 e ainda chorar em alguns caixões. Logo, ter
saudades mais. Mas como tudo é improvável e determinado em segundos, sei que
tal coisa é só querer. Assim como tantos (e os médicos também) falam que amanhã
pode ser algo nunca chegado. Sem carícia, beijo ou afago. No catado das emoções,
unções e presunções, famélicas e angelicais estradas nunca trilhadas ou tracejadas
em dor. No céu, o voo do condor vai e volta em volteios de só bossa (ou bosta).
Escrever para se entreter no
solene “eu em mim mesmo”, parece coisa de alcoólatra diametralmente lúcido após cada
ressaca dessas que as praias da Zona Sul carioca sabem o que são. Mas o que
seria das ondas se apenas chegassem, se jogassem nas areias quentes e deixassem
de ter vontade de voltar ao mar? Não haveria o som universal que em cada
continente chega assim, de repente, num rompante de espuma, e fica na cabeça e
ouvidos da gente. Crente e temente ao Deus que habita no interior da loucura própria,
feito hóstia que o ateu toma a se ver em desespero, o que vem é resto e arresto
de história. Canseira de memória, quase peremptória. Na lucidez e clarividência,
quase demência senil que surge, o mundo que urge dentro de si sentencia a
luxúria à turba que espera o tempo derrear.
Escrever para continuar a
viver é uma missão. Tipo aquela que se faz transversa numa reta irretocável e
fértil a fertilizar a vida que tenta brotar a cada sentença. Na demência das horas onde segundos segundam a chegada de minutos e esses de fugidios
dias e meses, anos a brotarem de um calendário que o dromedário do deserto seco
nem sabe existir, vamos a brincar de escrever e somatizar solidões e – porque não
dizer – saudades. Nas vestes que travestem seres e seus amores, sejam esses
quais forem, pois o desejo não é preso a gêneros efêmeros e finais, surjam
versos e poesias, heresias e frevos vindos da mais benvinda orgia. Daqui, entregue
ao cheiro da noite notívaga, a saber que o próximo dia irá cobrar tal fantasia,
vamos a bailar e mentir que o antônimo de saudade é felicidade. Será?
Na noite assombrada pelo som do passado, o gosto amargo de ter saudade até morrer...
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Notícias de um Brasil
Por Ronaldo Faria
terça-feira, 13 de outubro de 2026
Ser e estar
Por Ronaldo Faria
Tem gente que, alforriada da realidade por alguma fada madrinha, dessa que esquadrinha cada minuto da vida, crê que o importante é só ser e estar. Decerto tal assim será. Naquilo que restar, um quilo de desejo sombrio de na madrugada se matar. Mas, na inflação da vida, cada grama vale algo de tonelada mais.
Tem gente que, desmemoriada ou embriagada, não consegue ver além do próximo e próprio olhar. Dorme sem acordar e enxergar o luar brejeiro a se esconder nas nuvens parcas que a tempestade enlouquecida esqueceu. Mas, ser e estar não são algo a se procrastinar? Gentílico, o poeta sem saber apenas poetiza. E vê o tempo passar...
domingo, 11 de outubro de 2026
Gal canta Jobim
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Descobertas às cobertas
Por Ronaldo Faria
IV
Sem julgamentos e cancelamentos
Por Ronaldo Faria Em Copacabana as ondas sombreiam a escuridão da lua e iluminam a espuma que se espraia na praia onde corpos e cópulas se ...
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Por Ronaldo Faria -- E aí, vamos? -- Claro. Só se for agora... Carlos e Kelé, amigos de infância, suburbanos desde os primeiros panos de ...
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Por Ronaldo Faria A chuva miúda amiúde traz flamboyants vermelhos a juntarem o casal que viaja em ervas mil onde o senhor mais senil pensa...












